Paisagens Hibridas 2014
Coordenação
Rubens de Andrade |Professor Adjunto I/Coordenador do Curso de História da Arte|EBA/UFRJ
Domínios da paisagem - imagem e ideologia
Coordenador: Aldemar Norek
A experiência estética da paisagem é uma experiência política, e explorar as partes que a compõem, suas características e suas relações, sua diversidade de formas, usos e sentidos, procurar juízos que deem conta dos mecanismos de desrealização, este percurso acidentado é que pode nos remeter a uma reapropriação política da paisagem, a seu efetivo domínio. Produto humano, fato da cultura, a paisagem traz impressa em tudo que a constitui as pautas, os rituais e os significados simbólicos da sociedade que a produziu - traz em si, portanto, forte componente ideológica, que pode ser analisada a partir de sua formulação, como também na apropriação pela sociedade. Visões idealizadas propostas pelos agentes do capital, de um lado (nos projetos de incorporação de edifícios ou nos espaços de renda maximizada dos shopping-centers), e pelos agentes políticos, de outro (na proposição de novos edifícios institucionais e espaços públicos), atuam igualmente como desrealizadoras, como promotoras de um significado outro que se quer sobrepor, no sentido de ilusão ao que de fato se dá - a paisagem adquire, assim, uma conotação ideológica na polis contemporânea. Entre a paisagem urbana, a paisagem comercial, a paisagem industrial, a paisagem bucólica de uma Arcádia eternamente ressuscitada a cada volta do sistema, a paisagem dos guetos e a paisagem do deserto, busca-se no estudo da relação entre a ideologia e das formas que nela se amparam um conjunto de interpretações que deem conta do presente.
A cidade com artefato: arqueologia, paisagens e patrimônio
Coordenadora: Jackeline Macedo
O estudo da paisagem no campo da arqueologia envolve questões complexas sobre a maneira com que os grupos moldaram seus espaços sociais e culturais, construíram seu patrimônio cultural e de como estes podem ser percebidos, classificados, e acima de tudo, de como estes espaços moldam o ambiente em que habitaram a partir de processos simbólicos que estão vinculados a tradições e à memória. A cidade é um dos principais artefatos produzidos pelo homem, serve de morada aos grupos sociais, de palco para a produção de eventos e de espetáculos e, além de produto, ela atua enquanto produtora de relações sociais. A cidade é assim, uma estrutura híbrida e complexa. A Arqueologia Histórica, através de seus instrumentais metodológicos, incorpora problemáticas associadas ao passado dos grupos e pessoas comuns que em determinado momento ficaram silenciados nos discursos históricos, e neste sentido foram identificadas por Eric Wolf (1982) como “pessoas sem história”. Considerando esses aspectos diante da necessidade de explorar esse campo temático, pretende-se, através do engendramento das teorias e das práticas do campo da arqueologia, reconhecer a paisagem que se constrói no meio da multiplicidade de processos que nela se impõe.
A forma-jardim: cultura artística e visual na paisagem
Coordenador: Rubens de Andrade
A forma-jardim expressa uma ideologia e desempenha um papel distinto no ambiente urbano. Materializa-se através de um conjunto de ações construtivas que se revelam no cotidiano da cidade através da configuração de espaços cuja formatação pode estar ou não alinhada a uma ordem de usos e funções utilitários, científicos ou, simplesmente, de prazer. Ela se distingue quando enquadra a natureza previamente existente, e nela desenha paisagens que possuem escalas específicas de intervenção, usos socioambientais distintos e estilos que além de modelar a paisagem tornam-se o reflexo de múltiplas ideologias. O conteúdo material e imaterial que nela se manifesta é em grande parte o resultado das negociações firmadas entre o homem e o ambiente. A conjuntura sociocultural e espaço-temporal deve, também, ser considerada como fator essencial a sua existência. Se o jardim é um exercício continuado do apropriar-se da natureza em seu estado bruto, deve-se também observar que sua originalidade enquanto espaço construído é garantida pelo modus operand utilizado para redimensionar o ambiente natural e nele, potencializar representações, cuja aparência nada mais é que uma sobreposição de múltiplas camadas de tempo e ideologias. A cada nova camada acrescentada, o homem ensaia e justifica o seu domínio sobre a natureza.
Dinâmicas Urbanas: a arte da representação e interpretação das metrópoles
Coordenadora: Eliana Kuster

O termo dinâmica, provindo do grego dynamike, significa "forte". Em física, a dinâmica é um ramo da mecânica que estuda o movimento de um corpo e as causas desse movimento. O movimento e suas causas: esses são os nossos interesses aqui. Não no sentido estrito da física, porém. O que nos atrai é o movimento dos corpos sim, mas também a sua relação, tensão, atração, repulsão. Tudo isso no espaço - físico e simbólico - das cidades. As dinâmicas, portanto. As forças que mantem unidos e atuantes os corpos urbanos. As cidades são formadas pelos nossos corpos. Em movimento, em descanso, velozes ou lentamente, são esses corpos que atuam incessantemente na constituição desse aglomerado que é maior do que nós próprios, que não segue as vontades individuais e cujos rumos, na maioria das vezes, somos incapazes de prever. As dinâmicas urbanas possuem padrões e tendências que, invisíveis à olho nu, podem ser captados por outras formas. É dessas formas que nos ocupamos. Através da arte, do cinema, da literatura, da publicidade e de várias outras formas de representar o espaço e os corpos urbanos é que construímos as nossas formas de ver, tentando enxergar para além do que está dado, buscando interpretar aquilo que, por vezes, é visto apenas se olharmos de forma enviesada, não direta. Foi Stendhal quem comparou o romance a um espelho que se conduz por uma estrada, afirmando que ele às vezes nos reflete o céu azul, outras vezes, a lama do caminho. A metáfora nos oferece uma perspectiva nova, expressando de forma clara a razão de optarmos, em nossas investigações, pela inserção das representações que mediam o nosso olhar: elas são esse espelho que permite que a nossa visão penetre em recantos que, sozinha, ela talvez fosse incapaz de alcançar. É no que é revelado por alguns desses reflexos que tentaremos chegar, já que serão eles os responsáveis pelo engendramento de novas construções imaginárias sobre as cidades e a vida urbana.
Identidades paisagísticas de cidades amazônicas.
Rubens de Andrade
Pedro Mergulhão
As cidades-capitais da segunda metade do século XIX, no Brasil, experimentaram formatações urbanas que alteraram o desenho e os usos de sua paisagem.  Durante algum tempo, a ideologia externa direcionada às reformas urbanísticas ocorridas em cidades como Paris, Londres, Berlim determinou mudanças que se desdobraram pelo país, motivando ações que manifestaram-se em nossas cidades pela utilização de métodos, instrumentos e práticas relacionadas a estas ideologias forjadas no velho mundo. No caso da região amazônica, sobretudo em cidades como Belém e Manaus, firmava-se um ideário urbanístico modernizante que encontrou, na sociedade da época um locus e um modus operandi para a recepção, circulação e difusão dos fundamentos teóricos e práticos formulados pelos discursos urbanos exógenos. Os referenciais do final do século XIX e início do XX atravessaram o espaço-tempo histórico e na atualidade surgem como um legado relevante, quando se estudam as trajetórias paisagísticas pelas quais as cidades amazônicas passaram. Diante disso, a linha de pesquisa Identidades paisagísticas nas cidades amazônicas pretende entender as matrizes que desenharam a paisagem dessas cidades e, por sua vez, atualizar a discussão, no interesse de reinterpretar de que modo as ideologias paisagísticas contemporâneas impõem-se como um recurso real na construção da paisagem urbana, seja pelo fato da sociedade reconhecer o legado paisagístico delas derivado, seja por valorizar a inserção, nesta paisagem, de espaços livres públicos.